A Galinha no Armário, um pequeno comentário sobre o massacre de Realengo

No ótimo filme “O Homem que copiava”, o personagem vivido por Lázaro Ramos bola um plano maluco para matar o pai tarado de sua namorada. Além de um dispositivo que envolve uma geladeira, uma lâmpada e um bojão de gás, o plano também conta com uma pobre galinha presa dentro do armário da cozinha e que teoricamente deverá ser usada para distrair a atenção da polícia, e da mídia quando o assassinato for descoberto.

Apesar de maluco, o plano tem sua genialidade. Usar a banalidade da mídia a seu favor, pois ele sabe que para a mídia, mais importante que um pai de família morto em uma explosão (ninguém sabe que ele é tarado), é o fato da galinha presa no armário ter sobrevivido.

E hoje, lendo mais uma vez as notícias sobre o massacre em Realengo, penso se está em algum manual de jornalismo, usar de qualquer artifício para esticar ao máximo possível um determinado assunto, ainda que seja banalizando-o ao máximo possível também.

Um rapaz, claramente perturbado, deficiente mental, virgem aos 25 anos, com histórico de abandono, e que na infância sofreu perseguição dos colegas, entra em uma escola e mata treze crianças a sague frio, além de ferir e aterrorizar outras tantas. Para mim está ótimo. Eu não quero saber mais.
Eu não quero ver entrevistas dos parentes do assassino, eu não quero ver fotos dele na infância, eu não quero especular sobre se ele pertencia a alguma seita satânica ou se estava a mando do talibã.
Eu não quero que este pobre sujeito tenha uma alcunha do tipo, o monstro de Realengo, pois é um nome forte para uma alma muito fraca e covarde. Eu não quero que ele seja um exemplo.

Eu já me cansei de ver as manchetes, todas com a mesma chamada, e sim, são como uma chamada! Um convite para que outros malucos achem que é até interessante repetir o feito, e ganhar seus 15 dias de fama na TV. E percebam que ele mesmo atendeu a uma destas chamadas, pois sua intenção era atacar no Cristo redentor, um ótimo equivalente brasileiro às torres gêmeas. Um assunto que rende até hoje.

Eu não quero sair as 07 da madrugada, deixar meu filho na escola, e ficar a cada cinco minutos sendo relembrado alertado pelos meus feeds e pelos flashs de tv que eu vejo em alguns lugares, que um maluco pode acabar imitando o assassino de Realengo. Eu não quero ficar pensando que pode ser bem onde meu filho está. Me peguei ontem inclusive, dando uma espiada no monitor da sala da diretora para ver se a câmera do portão realmente funciona.

Eu não quero investigar este crime, eu não tenho estômago para isto, e isto não cabe a mim. Eu não quero mergulhar na mente do assassino, nem ver infográficos com números, mostrando por onde ele andou na escola.
Se prenderem os responsáveis pela venda dos revólveres, ótimo. Que se lavre o boletim de ocorrência e procedam com o julgamento. Uma nota no jornal está ótimo. Não quero conhece-los de perto também.

Eu não quero que a TV e os jornais transformem Realengo em Columbine como vem fazendo. O que aconteceu lá, o que aconteceu aqui na verdade, não é da nossa natureza.

O que eu quero saber, eu já sei de fato. Que morreram estas crianças. As famílias foram despedaçadas, o sofrimento, a dor, o medo que ficou no coração dos sobreviventes.

Eu quero sim, fazer uma prece às famílias que perderam seus filhos.
Quero desejar que estas crianças encontrem um mudo melhor do outro lado da vida.

E quero principalmente que este rapaz seja esquecido, enterrado como indigente, bem ao contrário do que pede a carta que ele deixou, um verdadeiro atestado de demência que eu não preciso de um especialista especialmente convidado pelo jornal para me dizer.

Quem os apresentadores dos shows matinais irão chamar para tomar café da manhã na segunda feira? Os familiares das crianças ou os irmãos do assassino? Quem der mais ibope, certamente.

Vamos lembrar as crianças, vamos homenageá-las. Abrace seu filho como eu fiz com o meu naquele dia. E deixem que os vermes se lembrem do indigente.

criancas

2 respostas para A Galinha no Armário, um pequeno comentário sobre o massacre de Realengo

  1. Carlos disse:

    Meu caro nunca comentei aqui antes mas queri dizer que arrepiei de ler o seu texto.
    Concordo 100% e assino em baixo.

  2. Bruno disse:

    SOBRE O MASSACRE EM REALENGO:
    Gente… Eu estou Muito triste! O que eu posso dizer verdadeiramente sobre isso, é que ” NOSSOS JOVENS ESTÃO SENDO LEVADOS A ACREDITAR EM COISAS SUTIS E BANAIS QUE MATAM A INFÂNCIA E A ALMA DE TODOS ELES”.
    Nos dias de hoje com tantos jogos de violência, tantas músicas de alienação que também incitam a violência, tanta facilidade em conseguir comprar uma arma em qualquer esquina desse nosso Brasil, então… infelizmente tenho que dizer que esse jovem não foi o primeiro e não será o último a cometer tamanho ato de insanidade mental… infelizmente, nos dias de hoje, estamos caminhando para uma destruição que muitos não conseguem enxergar… estamos caminhando em direção da destruição do primeiro mandamento…”AMAR O PRÓXIMO, COMO A NÓS MESMO”.
    Como podemos amar o próximo se sequer nos amamos? Como amar ao próximo se os valores familiares estão sendo jogados no lixo? Como amar ao próximo se “O DINHEIRO COMPRA” A MORAL, O RESPEITO e A DIGNIDADE de tantos? Como amar ao próximo se O QUE É CORRETO ESTÁ SENDO VISTO COMO ERRADO e O QUE É ERRADO ESTÁ CONFORMANDO A MUITOS? Como amar ao próximo se A BUSCA PELO PODER e PELO DINHEIRO está colocando os FILHOS E OS PAIS A SE MATAREM? infelizmente… é essa a nossa realidade.
    Nesse exato momento, existem pessoas que sofrem por serem humilhadas e maltratadas por muitos, seja em seu lar, trabalho ou em qualquer lugar que seja. Existem pessoas que estão sofrendo perseguições por sua raça, religião, opção sexual ou até mesmo por situação financeira.
    A sociedade mesmo é quem cria elementos como esse… isso mesmo… a própia sociedade. Como isso acontece? diga para os seus filhos que respeitem as pessoas! Digam a seus filhos que não tratem as pessoas com indiferença e não as despreze se forem diferentes! Ou melhor… acho que devemos começar por nós mesmo.
    Fazem Mais de Dez anos que estudo o comportamento e as relações inter-pessoais dos seres humanos, e acredite… ainda não tenho sequer 10% de informação de tudo o que o ser humano é capaz… tanto para o bem quanto para o mal. NUNCA DEVEREMOS CULPAR A FAMÍLIA OU OS FAMILIARES de elementos insanos como esse, pois nenhuma família merece isso, porque muitas familias podem ter um dos seus portando essa insanidade e não sabem.
    O meu recado a todos!
    “O homem para frear essa violência toda no mundo, ele primeiramente tem que frear a sua auto-destruição interior… começando a amar a ele mesmo para assim saber a tamanha importância do seu próximo”.

    Bruno Alexandre.

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