Tio Wilson – O lorde das estradas

Da infância até o meio da adolescência o único Wilson que eu saberia dar notícia seria o Sr. Wilson, da série de desenhos (e filme) “Dênis, o Pimentinha”. O nome de origem inglesa pertencia a um senhor carrancudo, mal humorado que sofria com as peraltices do vizinho nanico que sempre aprontava peripécias destruindo algo/tudo na casa do pobre velhinho.

Por volta de 1990 (acho) fiquei conhecendo outro Wilson, totalmente inverso do primeiro, generoso, alegre, de bem com a vida e principalmente de uma jovialidade que contrastava completamente com sua cara de Tio. Sim pois embora eu nunca tenha ficado sabendo da idade verdadeira dele a cabeça calva e os olhos profundos denunciavam que ele tinha alguns anos a mais nas costas do que nós, o grupo de jovens com a qual ele passava as tardes de sábado. Cruéis que éramos todos os jovens(jovens) apelidamos o amigo de “Tio” Wilson. Ele não se importava, creio eu e acho que até gostou, pois brincadeiras a parte ele sempre teve todo o nosso respeito e admiração por ser uma pessoa muito ativa e empreendedora no nosso meio, não negando-se a participar de qualquer coisa que planejássemos fosse viagens, acampamentos, cinema, etc..

Pois que certa vez ocorreu que meus pais resolveram ir morar em Montes Claros devido a falta de emprego na cidade onde residíamos. Fiquei arrasado, pois morava em Ipatinga minha vida toda, embora tenha nascido em Montes Claros, todos e tudo que eu conhecia estava em Ipatinga. Entrei numa depressão horrível.

Algumas semanas antes de nos mudarmos, Tio Wilson comentou comigo que iria fazer uma viagem com a família dele para a cidadezinha de Milho Verde, próxima a Diamantina. Ele já havia viajado para lá por uns dias e quis dar aos pais este presente.
Eles iriam de Kombi e justamente nos dias da viagem seu cunhado desistiu de ir, e ele me chamou para ocupar a vaga, tudo pago por conta dele.
No início não quis ir pois estava muito triste, e além disso por ser menor de idade minha mãe não queria permitir, pois sempre foi apavorada de deixar que seu filhos saíssem de debaixo de suas asas.
Mas com uma lábia de adolescente o Tio Wilson convenceu nós dois, e lá fui eu rumo a Milho Verde.

A viagem agradabilíssima também teve a companhia de meu amigo Adilson Mariano, que nos seguia de carro com um amigo. E nas paradas pelos pontos turísticos descíamos todos e íamos visitando as cidadezinhas que fazem parte deste trecho da Estrada Real.

MILHO VERDE (3)Nesta foto estão eu e o Tio Wilson, na pedra dos Reis Magos a caminho de Diamantina. 

Durante a viagem, por várias vezes observamos uma coisa engraçada. Sempre que via alguém sentado a beira da estrada Tio Wilson toca a buzina, e acena para a pessoa.
– O senhor o conhece Tio Wilson?
– Não…
Passa outro, ele buzina de novo.
– O senhor conhece ele?
– Não…

O engraçado é que muitas vezes a pessoa respondia o aceno como se conhecesse ele mesmo. Por fim virou piada, pois ele não explicava o porque da buzinação toda, apenas sorria quando a gente perguntava.
Quando nós víamos uma criança brincando na beira da estrada, mulher empurrando uma saraivada de menino catarrento, matuto tocando dois porquinhos com uma vara e Tio Wilson não buzinava, a gente metia a mão na buzina de gracinha.

Mas um dia (não me lembro se foi nesta viagem) veio a explicação. Tio Wilson dizia que muitas vezes ele via alguém ali sentado na beirada da estrada, sozinho e pensativo e ficava imaginando se aquela pessoa estava ali por depressão tristeza ou mágoa. Muitas vezes ele podia estar pensando em alguma bobagem ou mesmo estava ali por falta do que fazer. E cabeça vazia é oficina do Diabo!
Quando você buzina para esta pessoa, você a tira imediatamente daquele torpor. Por não te conhecer ela ficará pensando… –Quem é aquele que buzinou pra mim? Será o filho da Dona Zica que voltou da cidade? Sé o filho do seu Bernardo que tava estudando em Sun Paulo?

Assim ele acabava esquecendo o que estava pensando ou colocava um pensamento novo na cabeça. Sai dali daquela bêra e vai perguntar pra mãe, pra mulher ou pro marido se ele ou ela imagina quem dirigia aquele carro e largava as besteiras de lado.

Não sei se com aqueles matutos da beira da estrada funcionava, mas depois de alguns anos percebi que ele havia feito a mesma coisa comigo. Num momento de imensa depressão e tristeza por sair da minha cidade ele me levou dali e me mostrou que existem belezas e amizades em outras cidades também.
Não apenas isto mas acho que ali naquela viagem, me despertou o espírito aventureiro e a vontade de ver o resto do mundo com meus próprios olhos.

Hoje em dia não tenho mais notícias do Tio Wilson, um lorde que se denuncia não só pelo nome pomposo mas pelas atitudes de nobreza. Espero que esteja bem, onde quer que esteja.

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