Texto antigo: A História do Zé

Este é um texto bem antigo que eu escrevi para o Fórum da Dafra do qual eu sou moderador embora já há muito tempo não passe por lá.

Ele conta a história do Zé e sua Speed 150 amarela.
Lembrei dele depois que caí (de novo) com minha moto. Foram duas vezes no mesmo dia inclusive! Devo ter batido algum tipo de recorde com certeza.

Felizmente só machuquei o bolso… quase um quarto do valor da moto para colocar tudo original… é nestas situações que nascem as motos customizadas dos motoboys 😀

A História do Zé e sua Speed Amarela

O Zé é meu amigo… ele comprou uma Speed amarela igual a minha… O Zé vai trabalhar dois anos para pagar por ela e ponderou bem antes de comprar, afinal sabia que era uma marca nova, desconhecida, etc.

Dafra Speed 150cc

Dafra Speed 150cc

Mas o Zé foi na fé e comprou. Nada de Honda, o Zé já teve uma que nunca dá defeito, mas é feia pacas, e não tem nada de série, não tem marcador de combustível, não tem “odômetro” parcial, não tem partida elétrica, não tem motor, ops, motor tem sim, fraquinho mas tem.

Bom o Zé meu amigo, é muito desconfiado, afinal o Zé é mineiro né Zé?
Ele perguntou na concessionária sobre as oficinas, as peças, estoque.
Tudo muito bom, oficina montada na Avenida Amazonas, a outra para sair aqui na Avenida Pedro II, o olho do Zé brilhou!
Estoque de peças? Que isso meu amigo (disse o vendedor) o dono da Dafra fuma charuto feito com notas de Dolar. Nunca vai ter falta de peças para reposição. Estamos sem lugar para guardar peças!
Kansas faltando? Nada disso, é que estamos guardando para a nova loja que vai abrir e está vendendo pra caramba!

O Zé foi feliz para casa, contrato debaixo do sovaco, sonhando acordado com sua Speed amarela. Imaginando o dono da Dafra sentado numa pilha de guidons, parafusos e motores!

Mas nem tudo são flores na vida do Zé. Quando o Zé pegou sua Speed teve vários problemas como vazamento, freio agarrando, barulho na dianteira, a moto não rendia direito, ficava cansada quando esquentava… enfim. O Zé já estava começando a ficar preocupado, estava achando que tinha feito um péssimo negócio comprando esta tal de Ispide, e estava até pensando em devolver a moto, era trem demais na cabecinha preocupada do Zé.

A gota dágua foi as coisas que o Zé viu lá na oficina da Dafra. O mecânico fazia cada lambança que dava gelo na espinha do Zé! Mesmo o Zé não sendo um especialista em motos, o Zé não é bobo nem otário.

Mas se tem uma coisa que o Zé é de verdade é azarado… Vocês acreditam que o Zé bateu a moto? Foi foda, lembro bem do Zé comentando:
– Puta merda, agora qualquer problema que a moto tiver vão por a culpa da batida e eles não vão querer me dar a garantia muito menos poderei devolver a moto.

E lá foi o Zé ver quanto ficava para arrumar o estrago, e quase caiu duro, a concessionária não vendia peças separadas! Arranhou o cromado do farol? Vai ter que levar o farol completo, incluindo as duas lâmpadas, parafuso e suporte.
Arranhou a ponteira do escapamento, tem que trocar tudo também.
Eu avisei pro Zé:
– Zé, eu já passei por isto, mas é marca nova né Zé, tem que entender.

O Zé entendeu o ponto de vista deles, mas uma coisa que o Zé não entende são os 20 a 30 dias para fazer a troca das peças estragadas.
– Putz! (desabafou o Zé) mesmo pagando tem que esperar 30 dias?
– É (disse o mecânico). >> Pausa para o Zé respirar fundo<<
– Mas o que aconteceu com o estoque gigante? Os charutos de Dolar, e a montanha de de peças?
– Sei lá Zé, isto é coisa da sua cabeça (eu falei).

Mas o que deixava o Zé puto da vida, com vontade de gritar, era visitar  o fórum da Dafra. O Zé via um montão de gente super-satisfeita com a moto, fazendo mais de 130km/h. Tem um portuga que já tinha uma gêmea da Speed a um tempão e estava super satisfeito. Tinha gente ganhando brinde, churrasqueira de graça. E sua Speed lá olhando pra ele na garagem, doida para pegar a estrada mas coitada, engessada, desregulada, sem velocímetro.

Mas! Eis que a sorte do Zé começou a mudar. Estávamos eu e o Zé, arrumando a Speed dele, dando uma lixada nos arranhados, lavando a bichinha e eis que aparece um vizinho do Zé. Depois o Zé me contou que ele é trilheiro, e embora hoje esteja mais de idade, já rodou muito por ai de moto e de jipe, o cara entende das coisas.
– Dia…
– Dia…
– Dia…
– Samoténova?
(Esta moto é nova? em mineires).
– É…
– Brasilera?
– É chinesa, montadalapusladodamazonia.
(Chinesa, montada lá na Zona Franca de Manaus. em mineires).
– mmmm sei. Quecocêtáfazendoai? (O que é que você está fazendo ai? em mineirês).
Daí o Zé desaguou  a falar que a moto era boa, e tinha um montão de gente satisfeita, mas que ele achava que  a dele estava desregulada, e que por azar o dele ainda por cima bateu e tal. Que o mecânico era meia-boca e não resolvia os problemas dele, e queriam cobrar mais de R$200,00 pra trocar o painel sendo que apenas o velocímetro estava quebrado e etc…
O tal do vizinho do Zé, então pensou… pensou… deu uma coçada na barba… olhou pra moto, olhou pra cara de desespero do Zé… olhou de novo pra moto… e falou:
– Pómontánela? (Posso montar nela? em mineires)
– Pode! Disse o Zé.
O sujeito montou, ligou, deu uma partida, passou a primeira… acelerou e arrancou uns três metros pra frente.
Desligou a moto, voltou com ela pro lugar de ré mesmo. Desceu e falou pro Zé.
– Ói, tem um mecânico muidubão (excelente) aqui perto. Sieufosseocê levarraessamotinhalánel (Se eu fosse você, levava esta motocicleta para ele dar uma olhada).

Mas o Zé tava morrendo de medo de perder a garantia. O Zé é um frouxo mesmo… ainda bem que a minha não deu problema senão eu levava nele lá também.
Mas o vizinho do Zé garantiu que ele fazia um serviço perfeito, e nunca iriam descobrir que a moto tinha sido regulada em outro lugar, pois um profissional que entrega uma moto desrregulada como foi a do Zé, não tem como ver diferença nenhuma mesmo.
O Zé parou um momento ensimesmado… uns segundos apenas e falou decidido:
– Oncovô? (Aonde eu vou?)

O vizinho do Zé passou então o endereço da oficina pro Zé.
Na quinta feira passada o Zé acordou decidido. Ele iria de uma vez por todas tirar a prova se esta moto era boa, era ruim ou o que que ela era.
Montou na bichinha, e foi.

– Tchau Zé! Boa sorte ai cara (eu desejei pra ele).

O Zé me falou depois que quando chegou na oficina, logo ficou impressionado, era maior que a da Dafra onde ele tinha comprado a moto. Pensou também que iria ficar caro o que quer que fosse que eles fizessem nela.

Entrando lá aconteceu aquele efeito Speed! Todo mundo para e vem olhar a moto.
O Zé me falou que ninguém tocou na moto, nem sentou nela, nem falaram com ele.
Um dos mecânicos se abaixou e ficou ali olhando o motor, comentando:
– É uma Twister completa, só que toda genérica (o Zé disse que ficou meio revoltado na hora e deu uma tossidinha).
– hum hum…
– Ah! Opa, tudo bem?
– Tudo – disse o Zé
– Tá precisando de que amigo?

O Zé desandou as reclamações que eu já tava cansado de escutar e pediu pelamordedeus que eles dessem um trato na moto.

O dono da oficina, gente muito boa falou com o Zé que iriam fazer um reaperto e uma revisão geral na moto. Trocar o óleo e consertar o velocímetro para ele. Tudo com muito cuidado para não perder a garantia da moto! E também se encontrassem alguma coisa de errado dariam suporte e embasamento para ele reclamar na concessionária.
O mecânico explicou várias coisas para o Zé e tirou muitas dúvidas, tudo com calma e atenção, não deixou nenhuma pergunta sem resposta. E quando o Zé falava de algum vacilo do mecânico da Dafra ele apenas sorria, não criticava o cara.

Bom, naquele dia o Zé foi dormir bem ancioso. A entrega estava marcada para o dia seguinte à tarde e mal mal o Zé conseguiu trabalhar.
às 13:00hs mais ou menos ligaram para o Zé dizendo que a moto já estava pronta e que ele poderia buscá-la.
– Quanto foi todo o serviço? (perguntou o Zé)
– Foi R$ 150,00. Ficou um pouco caro por conta do conserto do velocímetro viu seu Zé?
O Zé achou pouco, mas não disse nada. Afinal só o painel custava R$ 200,00 na Dafra né?
Quando o Zé foi buscar a moto, o dono da oficina e o mecânico que falou que ela era uma Twister genérica foram falar com ele.

– Olha Sr. Zé, não se preocupe. É uma boa motocicleta, vale o preço que o Sr. pagou com certeza. Ela ainda está um pouco presa, pois ainda está amaciando. Os problemas que encontramos foram folga nas válvulas, na coluna da direção (o que fazia o barulho na frente) e a vela que tem uma queima muito baixa, mas não trocamos por causa da garantia. Também demos um reaperto geral nela e regulamos o carburador.
É uma boa moto! Não se preocupe com ela. Quando amaciar vai andar bem melhor, mas o Sr. já vai sentir a diferença.

O Zé agradeceu muito mesmo a atenção. Montou na moto e foi embora. De cara já notou o ronco do motor diferente. Bravo.
A moto subiu o morro que vai para a casa do Zé numa boa! Parecia outra. Os olhos do Zé brilhavam de novo. Nem reconheci ele quando chegou com a moto!

Mas o Zé queria mais. Ele precisava de uma prova concreta! E resolveu fazer uma viagem com a moto. Não muito longe. Só para testar mesmo.
Colocou sua pequena na garupa e foi!

Não sei onde exatamente eles foram, mas quando o Zé voltou lembro de ter visto ele dar uma pequena alisadinha no tanque da moto… com um sorriso no rosto o Zé falou:
– Arrasou amarelinha… arrasou.

FIM

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